NATUREZACTIVA
Manutenção pós-raide
Algumas dicas sobre o que fazer aos carros depois de uma aventura.
Publicado originalmente em 22.3.2000
Este é um tema para o qual, seguramente, muitas pessoas poderão dar a sua contribuição, pois pode sempre escapar alguma coisa a cada um de nós. No entanto, aqui vão algumas dicas:
- Lavagem
Penso que, antes de mais nada, deve ser dada uma boa lavagem geral ao jipe. Obviamente, todos nós gostamos de andar a passear o nosso "menino" com vestígios bem visíveis da nossa "aventura" mais recente. No entanto, uma boa lavagem tem a virtude de libertar alguma da terra acumulada onde não deve e de pôr a nu os vestígios que nos podem dar algumas indicações para dedicarmos uma maior atenção a certos aspectos.
A parte superior do carro não tem que ser lavada de forma tão exaustiva como isso, o que nos permite deixar alguns dos tais vestígios para os mais vaidosos. No entanto, acho que se deve dar particular atenção a:
- Vidros
O pó (quando não a lama) que se acumula no vidro da frente pode destruir muito rapidamente as escovas dos limpa-vidros. A lavagem do vidro serve ainda para se tentar detectar alguma marca provocada por pedra que possa ter sido arremessada por outro veículo que tenha circulado à nossa frente. Essas marcas, se detectadas cedo e dependendo do tipo de vidro, podem permitir a sua recuperação. Demasiado tarde, podem conduzir à sua inutilização.
- Faróis e farolins
A lama pode obscurecer completamente os faróis, prejudicando a nossa visibilidade. Por outro lado, não nos devemos esquecer que os faróis não servem só para vermos o nosso caminho, mas também (e ainda mais importante) para sermos vistos. Se a lama anular ou reduzir substancialmente a capacidade de sermos vistos pelos outros, pode acabar por causar acidentes. Deve também ter-se em atenção que os faróis não são só os da frente. Além de, mesmo durante os raides, se dever ir verificando a sua limpeza, no final devemos ter o cuidado de lavar muito bem faróis, farolins de trás e piscas laterais.
Aproveitando a lavagem, devemos verificar as montagens e fixações dos faróis e farolins. Em alguns carros (UMMs, por exemplo) é muito frequente os farolins laterais dos piscas saírem dos encaixes ao passarmos por zonas de arbustos mais cerrados. Os carros que têm faróis superiores podem também sofrer nas suas montagens.
- Rodas e pneus
Deve aproveitar-se para ver as rodas, quanto aos efeitos da passagem em zonas mais duras que possam ter provocado mossas. Quanto aos pneus, deve aproveitar-se para analisar a existência de cortes, perfurações ou objectos que tenham ficado entalados entre o pneu e a roda ou espetados no próprio pneu. Deve aproveitar-se, também, para analisar o seu desgaste, tentando verificar se é uniforme e ponderando a conveniência em se fazer o seu cruzamento.
- Chassis
As cavas das rodas devem ser muito bem lavadas, tendo o cuidado de retirar toda a lama acumulada tanto nos painéis como nos elementos da direcção, da suspensão e dos travões. Nos carros com molas semi-elípticas (UMMs, L-Rs antigos, Samurais, etc.) deve ter-se o carro tão leve quanto possível para se conseguir tirar tudo o que possa estar entalado entre as lâminas. Nesta fase, deve aproveitar-se para dar uma vista de olhos aos amortecedores e aos apoios da suspensão.
Quanto aos travões, devem lavar-se tão completamente quanto possível os de disco, tendo mais uma vez em atenção a terra e os pequenos objectos que possam estar acumulados no meio dos discos ventilados.
- Motor
O primeiro cuidado a ter é em garantir que o motor já esteja suficientemente arrefecido antes de começar a ser lavado. Este cuidado é particularmente importante nos motores que tenham componentes em alumínio. Seguidamente, antes de começar a lavagem do motor, deve garantir-se que estão bem tapadas todas as possíveis, mas indesejáveis, entradas de água (tampão da entrada do óleo, vareta do óleo, tampões dos depósitos dos hidráulicos de travões/embraiagem/assistência da direcção, tampões dos elementos da bateria, entrada do filtro do ar, etc.). Nos motores a gasolina, deve ter-se a precaução adicional de proteger os elementos da ignição.
Normalmente, não há necessidade de lavar o motor propriamente dito com grande intensidade, devendo regular-se a intensidade e a direcção do jacto por forma a não incidir perpendicularmente e com demasiada forca em nenhum componente que possa, com isso, ficar danificado. Convém, no entanto, verificar que se tiram bem as impurezas que se possam ter alojado em articulações ou cabos (por exemplo, do acelerador) e que futuramente possam vir a criar prisões.
Normalmente, a lavagem do motor deve ser pouco mais que superficial, com excepção para o(s) radiador(es). Deve ter-se o cuidado de garantir que terra, lama ou qualquer outro tipo de impurezas são bem retirada dos ninhos dos radiadores, porque a sua progressiva obstrução, limitando a sua capacidade de refrigeração, pode acabar por trazer complicações graves no futuro. Se o motor tiver instalado um intercooler, deve também proceder-se à sua limpeza periódica, neste caso com ar comprimido.
- Travões
Os travões dos carros podem ser mais ou menos afectados, dependendo do tipo de terreno e do grau de dureza do raide. No entanto, alguns aspectos devem ser sempre verificados:
- Travões de disco
Devem ser previamente lavados, como referido acima. Depois, convém tirar as rodas e fazer uma inspecção, rodando o disco uma rotação completa, para se verificar se não é necessária uma lavagem mais profunda. Deve garantir-se que não ficam alojadas lamas ou outros elementos estranhos no sistema, sem esquecer as ranhuras de ventilação, se as houver. Aproveitar para verificar o desgaste dos discos e das pastilhas.
- Travões de tambor
Depois de lavados exteriormente, devem tirar-se as rodas e fazer-se uma inspecção, verificando se o tambor roda de maneira uniforme e se o travão se liberta facilmente (sem prisões). Se o raide tiver envolvido alguma passagem a vau ou por zona de lama profunda ou areia, convém desmontar os tambores e verificar se não há elementos estranhos no seu interior. Se assim for, terá que ser feita uma limpeza completa, após o que se deve verificar o correcto funcionamento do sistema. Aproveitar para verificar o estado do material de fricção das maxilas e o correcto funcionamento do travão de mão, se actuar nos tambores.
- Filtros
O ou os filtros de ar devem ser muito bem limpos. A limpeza de um filtro de ar depende do seu tipo. No entanto, para os filtros mais frequentes de elemento de cartão, devem tomar-se em consideração duas normas: primeiro, um filtro deve ser limpo, sempre que possível, de dentro para fora e, segundo, se o formos limpar com ar comprimido, o jacto nunca deverá incidir nem perpendicularmente no elemento nem muito tempo na mesma zona, devendo optar-se por uma incidência oblíqua (em ângulo) e num movimento contínuo de vaivém, para que nenhuma zona fique fragilidade ou mesmo rota pelo jacto do ar.
Não se deve esquecer que podem existir outros filtros instalados. Um filtro de gasóleo, por exemplo, deverá ser periodicamente verificado mas, em condições normais, poderá ser conservado por varias dezenas de milhares de quilómetros.
- Transmissão
Devem ser verificados todos os níveis da transmissão: caixa(s) e diferenciais. Se o raide tiver imposto alguma passagem a vau ou a passagem por zona de lama profunda, convém verificar a possível contaminação dos óleos hipóides. Se isso se verificar, deve proceder-se imediatamente à sua substituição integral.
Deve fazer-se a lubrificação de todos os pontos próprios e deve aproveitar-se a ocasião para verificar as articulações das caixas, analisando os elementos que podem ter demasiada folga ou terem objectos estranhos presos.
Deve também verificar-se o grau de prisão e o correcto funcionamento do sistema de cubos manuais, se existir.
- Suspensão e direcção
Devem verificar-se os vários elementos da suspensão e da direcção (braços, cabeçotes, molas, amortecedores, barras estabilizadoras, etc.). A ideia é analisar componentes que possam estar danificados, tanto nos elementos em si como nas borrachas em que estão montados. Cada carro tem os seus pontos frágeis típicos e é nesses que deve incidir a nossa atenção (por exemplo, as placas com os apoios inferiores dos amortecedores dos UMMs), mas todos os outros elementos devem também ser verificados. Deve, por exemplo, tentar-se descobrir o estado das borrachas dos vários sistemas, antecipando assim a sua substituição para que as folgas não tomem proporções demasiado significativas.
Deve fazer-se a lubrificação de todos os pontos próprios e, quando se estiver debaixo do carro, deve aproveitar-se para verificar os vários elementos do sistema de escape e de cablagem eléctrica que possa passar pela parte inferior do carro.
- Outros níveis
Todos os outros níveis devem ser verificados. Alem do(s) dos travões, deve aproveitar-se para verificar os níveis da embraiagem (se for hidráulica), do óleo do motor, da direcção assistida (se houver), do líquido de refrigeração, do líquido dos esguichos e do electrólito da bateria.
- Verificação final
Finalmente, deve colocar-se o motor em funcionamento para verificar o seu arranque normal. Depois, sempre com o motor a trabalhar, deve verificar-se o funcionamento de todos os sistemas eléctricos (faróis e farolins, limpa-vidros, esguichos, desembaciadores, luzes interiores, guinchos, etc.).
No caso dos ventiladores accionados por sensor térmico, deve mesmo esperar-se que a temperatura atinja o nível habitual a que o sistema deve disparar, para verificar o seu correcto funcionamento.
Adicionalmente, deve verificar-se o estado das escovas dos limpa-vidros, o funcionamento do sistema hidráulico do(s) macaco(s) e acertar as pressões de enchimento dos pneus.
Devo, com certeza, ter-me esquecido de várias coisas. Outras contribuições para este tema serão, seguramente, apreciadas.
Autor do Artigo: José António Galveias
Fonte: http://www.forum-tt.com
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